Entrevista a um trabalhador da Autoeuropa (PassaaPalavra)

05/07/2009

Por que é que este pré-acordo foi recusado pelos trabalhadores?

Não é que os trabalhadores não queiram aceitar um acordo. Sabemos que há crise, sabemos essas coisas todas, mas só não aceitámos é o pré-acordo que fizeram. Há crise, querem fazer um acordo com os trabalhadores para ver se resolvem isso da fábrica, das crises todas. Só que propuseram uma cena aos trabalhadores e então os trabalhadores não aceitaram.

Como é que surgiu esse pré acordo?

A Comissão de Trabalhadores (CT) foi fazer um acordo com a administração: então fizeram um pré-acordo que impôs bué de cenas [muitas cenas] e uma das cenas é a que a gente não aceitou. Os trabalhadores têm down days. Sabes o que são os down days? São atribuídos 22 dias no início do ano, para balançar no mercado quando há baixa de produção. Como há crise, há pouca produção, os trabalhadores vão para casa e gastam essas horas, e quem ficar com saldo negativo chega ao final do ano e tem que pagar.  Os que têm dias negativos fazem sábados para abater esses dias negativos; os que têm dias positivos fazem sábados na mesma, ficam com mais down days e no fim do ano recebem. Agora eles propuseram os sábados como dias normais de trabalho. Ou seja, vamos trabalhar de segunda a sábado e não há horas extraordinárias. Dantes os sábados eram pagos a 200% e depois, passado um ano, fizemos um acordo e já era a 100%; depois, passado uns meses, novo acordo e ficou em 75%. Agora querem 0%! Além de que não acumulavas aos down days as 8 horas que fazias aos sábados. Só acumulavas 6; e as outras duas horas?… E depois havia muitas contradições: há crise, há pouca produção, como é que vais fazer sábados, horas extraordinárias? Fizeram o plenário e como havia bué de contradições, coisas mesmo sem lógica, os trabalhadores não aceitaram.

Mas disseste que os trabalhadores queriam um acordo?

Saiu um abaixo assinado para reverem o acordo. Os trabalhadores querem uma solução para a crise, só não aceitaram a solução que eles impuseram. O “não” é isso. Fizeram ameaças: disseram que despediam os trabalhadores, entrávamos em lay off ou íamos trabalhar só um turno perdendo o subsídio (15% do salário). Fizeram ameaças se não aceitássemos o acordo. Se a gente aceitasse, não despediam ninguém e a gente fazia sábados a horas normais. Fazíamos 2 sábados este ano e acho que é 10 ou 20 para o próximo ano. Isso começou a contradizer tudo: se há crise, não precisam de sábados, e eles disseram que fazemos sábados quando há produção alta e quando não há vamos para casa… Dissemos ok, mas em Setembro marcaram dois sábados e está previsto uma baixa de produção em Setembro… como é que marcaram dois sábados?! Essas contradições, e outras cenas que já houve dantes com o anterior acordo, fizeram com que o trabalhador dissesse não a este acordo.

Sabes se quem votou contra foi pessoal mais afecto ao sindicato ou à CT?

Nas votações há 6 mesas: a da administração (as chefias, os cabeçudos) votou “sim”; a mesa 2, dos mais velhos, os veteranos que estão lá há muito tempo, também votou “sim”; nas mesas 3, 4 e 5 da maioria, dos que estão há 8 ou 10 anos, ganhou o “não”; na mesa 6, dos que estão há menos tempo, os contratados votaram “sim”. Porque são os mais precarizados, os que estão a ser ameaçados. A maioria é para serem efectivos, e eles não querem passar ninguém a efectivo e estão a ameaçar mandá-los embora.

Como se fazem os acordos?

A administração propõe o acordo. A CT vai negociar. Senta-se à mesa, faz reuniões. Depois faz um plenário, fala com os trabalhadores sobre o que a administração propôs e depois a CT, com base se é justo ou não, se aceita ou não, negoceia com a administração e fazem um pré-acordo. A CT vai propor aquilo aos trabalhadores e os trabalhadores assinam se aceitam ou não.

Vocês vão sendo informados do que se passa?

Vão metendo papéis a informar do que está a ser negociado, daquilo que eles decidem, ou seja, a administração diz “estamos em crise, se calhar vamos ter que entrar em lay off ou despedir trabalhadores ou meter muitos down days que o pessoal vai ficar com muitos negativos”… Dão três opções e a CT informa os trabalhadores e vai negociar com estas três opções, e então fazem o acordo. Do que decidirem informam os trabalhadores: “eles propuseram isto e a gente negociou assim”. Os trabalhadores vão votar se querem ou não.

Portanto são informados?

Somos, de certa forma, mais ou menos informados.

Quando vão negociar já discutiram com os trabalhadores?

Sim, é aceite quando a gente assina.

Antes de votarem este pré acordo, já tinham discutido convosco primeiro?

Antes de ir a votos há um plenário… Havias de ver este… toda a gente estava contra. A maioria que falou não aceitava o pré-acordo porque só prejudicava os trabalhadores e só beneficiava a administração.

Então, foi bem discutido?

Foi. Tivemos plenário, discutimos, conscientes, fomos a votos e o “não” ganhou. Mas mesmo assim queríamos que houvesse um acordo, mas não aquele.

Como é que os trabalhadores estão organizados para tratar dos assuntos que lhes interessam?

Há a CT e os sindicatos, que são vários. Acho que há três.

Como é a relação entre os sindicatos e a CT?

Eles dizem que a CT vai muito na conversa da administração. Tanto que no último plenário a acusaram muito. Dizem que faz acordos mais a beneficiar a administração. O sindicato não. O sindicato é aquele que de certo modo apoia os trabalhadores, faz manifestações contra aquelas coisas que ao longo dos anos têm sido sempre aprovadas, e a CT estava lá e mesmo assim houve muitas muitas coisas que passaram e que os trabalhadores não queriam. A CT não faz manifestações. Quem faz são os sindicatos. A CT tem aberto as pernas sempre a tudo, tudo. Tanto que neste plenário queria que a gente votasse “sim”… como sempre passou o “sim”… mas os trabalhadores agora abriram os olhos.

Como são as relações entre os trabalhadores mais estáveis e os contratados?

São boas. Os que estão há mais tempo, os mais estáveis, sempre apoiam os contratados. Porque em todos os postos de trabalho estão 3, 4 ou 5 contratados e se os tirarem é sobrecarga para os que estão lá. E depois os contratados sempre se deram bem com os que estão lá há muito tempo. Tanto que para fazerem ameaças, eles ameaçam com os contratados porque sabem que eles os apoiam um bocado.

Mas o “não” ganhou também por estarem fartos da redução dos direitos?

Os trabalhadores querem um acordo, mas este não. Porque não queriam mesmo, porque é um acordo mau e há outras soluções. É por isso que votaram contra. Não é porque já estão fartos das cenas e agora vão passar uma rasteira a administração, não é nada disso. Este “não” é porque há contradições e há outras soluções.

Achas que a CT podia ter feito melhor ou os sindicatos?

Não sei se sindicatos têm muito voto nas negociações, se intervêm… acho que é só mesmo a CT e é a voz só de alguns que vão a reuniões, discutem e decidem um pré-acordo que vão propor aos trabalhadores que votam “sim” ou “não”. Também eles não podem decidir qualquer coisa e então vão aos trabalhadores que votam.

Como é que os trabalhadores controlam os seus representantes e o que se passa nas reuniões com a administração?

A gente não sabe nada. A gente só é informado… há um papel lá fora… a gente tira o papel… lê o que a administração propôs, o que a CT negociou, o que está para negociar… só isso. Agora as reuniões,… a gente não participa, não sabe o que se passa lá dentro.

Estão todos ligados, os trabalhadores da AutoEuropa com os do Parque Industrial?

Estão, estão todos unidos, são solidários.

E os das outras empresas da VW de outros países têm-vos dado apoio?

Não. Não temos recebido.

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