Saltar para o vazio

01/08/2009

“Por um lado queremos viver o comunismo, por outro gostaríamos de espalhar a anarquia”

Foi publicada, numa fanzine libertária intitulada «Saltar para o desconhecido», uma crítica do texto «Appel», redigido algures em França por mão anónima (mas não desconhecida) e publicado na região portuguesa pelas Edições Antipáticas.

Nele se fala de «discussões apaixonadas» e de «engodos» que seria necessário cortar, da «confusão oferecida pelos seus autores» e de ver «o que realmente é dito». Aqui, saúda-se o aparecimento de uma crítica e a vontade de debater o texto. Procura-se também desenvolver alguns comentários, respostas e ideias sobre os temas abordados no «Appel», entretanto traduzido em várias linguas e que vem provocando debates entre vários colectivos e subjectividades da cena antagonista internacional.

1. O texto começa por afirmar que o «Appel» efectua uma crítica do capitalismo que deixa de fora o Estado. Indo ainda mais longe, sustenta que não se encontra ali qualquer sugestão para um ataque ao Estado ou qualquer análise de outras estruturas e instituições de dominação. Esta parece-nos ser uma crítica injusta. Podemos encontrar no Appel, do primeiro ao último capítulo, várias críticas da forma-Estado, da política clássica, das múltiplas formas de dominação existentes na sociedade e que contaminam até as dinâmicas, movimentos e realidades que contestam essa mesma sociedade. Para citar ao acaso: “nada do que se exprime no quadro da politica clássica poderá jamais travar o avanço do deserto, pois a politica clássica faz parte do deserto.” (p.12); O capitalismo não teria podido triunfar à escala planetária sem técnicas de poder, técnicas objectivamente políticas – técnicas, há-as de todos os tipos, com ou sem instrumentos, corporais ou retóricos, eróticos ou culinários, até à disciplina e aos dispositivos de controlo; e isso em nada ajuda a denunciar a «dominação da técnica».(pp.19 e 20); “Se tomarmos em consideração a soma de leis de excepção e regulamentos de costumes que governam os espaços atravessados por quem quer que seja, não há actualmente uma única existência, cuja impunidade possa ser assegurada. Existem leis, códigos e decisões de jurisprudência que tornam punível toda a existência; basta para tal que sejam aplicadas à letra.” (p.21)“O liberalismo erigiu como princípio que tudo deveria ser tolerado, que tudo pode ser pensado, desde que não tenha consequências directas na estrutura da sociedade, nas suas instituições e no poder de Estado. Qualquer ideia pode ser aceite, a sua expressão até deverá ser favorecida, desde que as regras do jogo social e do Estado sejam aceites.”(p.25).

Poderíamos continuar as citações até à exaustão e encontraríamos inúmeras formulações críticas, não apenas da essência do Estado enquanto violência organizada, mas de várias formas de dominação que o atravessam e/ou o ultrapassam. Note-se que o/a autor(a) do texto não se propôs avançar uma nova e arrojada crítica do Estado, ou passar em análise todos os textos que o precederam nesse domínio, mas formular a partir de evidências (entre as quais a relação existente entre a exploração capitalista e a violência do Estado) propostas estratégicas de luta e ataque no contexto da guerra civil mundial.


2. Ao contrapor a «comunidade» ao capitalismo, o «Appel» faria a apologia de «sociedades alternativas que reproduzem a mesma dominação individual» sob «uma imagem de radicalidade». Também esta crítica nos parece, fundamentalmente, injusta e superficial. Voltamos a recorrer a citações: “O que se opõe à desolação dominante não é definitivamente mais do que outra desolação pior fornecida. Por todo o lado se trata da mesma ideia idiota de felicidade. Os mesmos jogos de poder tétanizados. A mesma desarmante superficialidade. O mesmo analfabetismo emocional. O mesmo deserto.” (p.6); “É à força de encarar o inimigo como um sujeito que nos enfrenta – em vez de o reconhecer como uma relação que nos domina – que adoecemos na luta contra a doença. Que reproduzimos, sob o pretexto da «alternativa», o pior das relações dominantes. Que nos pomos a vender a luta contra a mercadoria. Que nascem as autoridades da luta-antiautoritária, o feminismo com grandes colhões e os linchamentos antifascistas.” (p.7)

Acrescentamos a este conjunto de citações uma que nos pareceu particularmente familiar e com a qual é difícil evitar o confronto (embora, inexplicavelmente, o texto de «Saltar no desconhecido» a tenha ignorado): “Na nossa fuga às condições de existência que nos mutilam, encontramos os squats ou melhor o palco internacional dos squats. Nesta constelação de locais ocupados nos quais, digam o que disserem, diferentes formas de agregação colectiva fora do controlo se exprimem, começámos por assistir ao crescimento da nossa força. Organizámos a nossa sobrevivência elementar – recuperação, roubo, trabalho colectivo, refeições em comum, partilha de técnicas, de materiais, de inclinações amorosas - e encontrámos formas de expressão política – concertos, manifs, acção directa, sabotagem, panfletos. Depois, a pouco e pouco, assistimos à transformação do que nos rodeava num meio e de meio em palco. Nós vimos a promulgação de uma moral tomar o lugar da elaboração de uma estratégia. Vimos normas solidificarem-se, vimos reputações serem construídas, achados porem-se a funcionar, e tudo tornar-se tão previsível. A aventura colectiva transformou-se numa triste coabitação. Uma tolerância hostil tomou conta de todas as relações. Entendemo-nos. E, inevitavelmente, para acabar, apercebemo-nos que o que tinha sido um contra-mundo, estava reduzido a um reflexo do mundo dominante: o mesmo jogo de valorização pessoal no campo do roubo, da pancadaria, da correcção política ou da radicalidade – o mesmo liberalismo sórdido na vida afectiva, as mesmas preocupações de território, de domínio, a mesma cisão entre vida quotidiana e actividade política, as mesmas paranóias identitárias.”(pp.33-34)


3. Vamos deixar de parte a acusação de que o texto seria veladamente «Marxista», por tudo o que ela tem de preguiçosa e paranóica. Contrariamente ao que nos dizem os companheiros de «Saltar para o desconhecido», Marx não é «explicitamente descartado», mas explicitamente citado como um «velho amigo»: “Na sociedade burguesa, onde as diferenças entre os homens não são mais do que diferenças que não dizem respeito ao próprio homem, são justamente as verdadeiras diferenças, as diferenças de qualidade que não são consideradas. O comunista não pretende construir uma alma colectiva, deseja realizar uma sociedade onde as falsas diferenças sejam liquidadas. E, liquidadas essas falsas diferenças, abrir todas as possibilidades às diferenças verdadeiras.” (p.42)

Concentremos-nos antes na crítica segundo a qual os autores de «Appel» pretenderiam «viver o comunismo no seio do capitalismo», ou que pretenderiam «sair do capitalismo» simplesmente construindo e gerindo infra-estruturas que lhes assegurem a sobrevivência à margem dos circuitos mercantis. Mais uma vez, o texto defende-se bem de semelhantes acusações: “O nosso objectivo não é apenas uma reapropriação de meios. Nem uma reapropriação de saberes. Se juntássemos todos os saberes e as técnicas, toda a criatividade desenvolvida no campo do activismo, não obteríamos um movimento revolucionário. É uma questão de temporalidade. Uma questão de construir as condições nas quais uma ofensiva se possa alimentar sem desfalecer, de estabelecer solidariedades materiais que nos permitam persistir. Acreditamos que não existe revolução sem a constituição de uma potência material comum.” (p.22); “O comunismo não consiste na elaboração de novas relações de produção, mas antes na abolição das mesmas. Não estabelecer no nosso meio ou entre nós relações de produção significa nunca permitir que a busca do resultados se sobreponha à atenção ao processo, destruir entre nós todas as formas de valorização, cuidar para que não se separe afecto e cooperação. Estar atento aos mundos, à sua configuração sensível, significa exactamente impossibilitar o isolamento de qualquer coisa que se assemelhe a «relações de produção».” (p.45).


4. Onde os companheiros de «Saltar no desconhecido» identificam uma contradição incontornável entre construção e ofensiva, os autores do «Appel» respondem com um argumento bastante claro e explícito contra semelhante separação: “Em todo o lado nos confrontamos com a chantagem de dever escolher entre a ofensiva e a construção, a negatividade e a positividade, o viver e o sobreviver, a guerra e o quotidiano. Não lhe responderemos. Vemos demasiado bem o modo como essa alternativa esquarteja e depois cinde e volta a cindir todos os colectivos existentes. Para uma força que se liberta, é impossível dizer se a aniquilação de um dispostivo que a agride é uma questão de construção ou de ofensiva, se o facto de atingir uma relativa autonomia alimentar ou medicinal constitui um acto de guerra ou de subtracção. É uma questão de circunstâncias, como num motim, onde o facto de nos podermos defender entre camaradas aumenta consideravelmente a nossa capacidade de devastação. Quem pode afirmar que armar-se não participa da constituição material de uma colectividade? Lá onde nos colocamos de acordo acerca de uma estratégia comum, não existe escolha entre ofensiva e construção, existe, em cada situação, a consciência do que acresce à nossa potência e do que a enfraquece, do que é oportuno e do que não o é. E lá onde essa evidência não se dá, existe a discussão e, no pior dos casos, o jogo.” (p.46)

Não há aqui qualquer vestígio de uma vontade de fugir para um qualquer lugar idílico, nenhuma proposta para a constituição de um micro-mundo pós-capitalista, nenhuma vontade de abandonar o combate para abraçar um estilo de vida alternativo fechado numa redoma de cristal. Há a apologia da estratégia, da apropriação de instrumentos de luta, da indissociabilidade entre vida e luta, partilha da existência e partilha do combate. Pode-se evidentemente discordar e criticar – com muitos e sólidos argumentos. O que se torna mais duvidoso é a transformação do que está escrito no texto em algo completamente diferente, apenas para que possa encaixar numa caricatura e expor-se a uma crítica que se socorre de argumentos familiares, conhecidos e muitas vezes repetidos, mas que de todo em todo não se dirigem aquilo de que aqui se fala. Não vale tratar o «Appel» como uma variante do comércio justo e da ecotopia, apenas porque se conhecem bem os argumentos contra esse tipo de realidades. O que este texto possui de singular merece, dos companheiros que dele discordam, uma análise singular.


5.   Finalmente, o ponto alto e central na argumentação contra o «Appel »seria a apologia acrítica da «comunidade», pelo que ela teria de «roubo da capacidade do indivíduo para decidir sobre a própria vida». Parece resultar daqui que toda e qualquer forma de partilha colectiva da existência, de cooperação e de comunicação entre indivíduos, de escolhas e decisões colectivas, seria irremediavelmente opressiva («colectivista» e «marxista») e teria como condição a perda da capacidade individual de fazer escolhas. Na sua definição do indivíduo como alguém que possui ideias, afectos e emoções próprios que não se desejaria ver circular, o texto de «Saltar no desconhecido» corresponde precisamente a uma das mais profundas críticas avançadas no «Appel»: “O indivíduo liberal, aquele que nunca se exprime tão bem hoje em dia como quando se encontra nos movimentos pacifistas e cívicos, é aquele que é suposto ter apego pela sua liberdade, na exacta medida em que essa liberdade não seja comprometedora, e sobretudo que não procure impor-se aos outros.” (p.25); “Por entre as evidências liberais, há a de se comportar, até mesmo em relação às suas próprias experiências, como um proprietário.” (p.26)

Não nos interessa aqui desenvolver uma extensa análise histórica. Limitamo-nos a sustentar que é no seio de comunidades, num contexto de socialização, que os seres humanos desenvolvem todas as suas características próprias, incluindo as da rebeldia e da individualidade. Que um indivíduo privado do seu contexto social, cultural, económico e político, é uma ficção, porque todos nós somos, desde os primeiros momentos da nossa existência, influenciados, condicionados, formados, constituídos pelas necessidades relacionadas com a nossa subsistência. É precisamente porque desejamos autonomia individual e a possibilidade de viver segundo as nossas vontades e desejos, que a liberdade assume para nós uma forma mais complexa do que simplesmente algo a «tomar de volta». Não se trata de uma questão de «estado de espírito» ou de um inconformismo genético que alguns teriam a mais (permitindo-lhes ser rebeldes, insurrectos e autónomos) e outros a menos (condenando-os a ser passivos, conformistas, obedientes e voluntariamente servis). Os dispositivos de poder mais poderosos são precisamente os mais subtis e invisíveis, os que melhor se confundem com a paisagem e parecem tão naturais como a nossa sede. Seria ingénuo acreditar que o seu poder é meramente o da subtracção – eles são directamente produtivos e, através das relações que estabelecem, criam o território e o tempo que habitamos.

A liberdade que desejamos assume por isso a forma de um problema colectivo e estratégico, que exige uma perspectiva mais ampla do que a expressão dispersa e ocasional de indivíduos e grupos de indivíduos que se insurgem contra um aspecto específico das suas vidas. À escala da guerra civil mundial, trata-se de identificar um sinuoso caminho de cabras por onde possamos caminhar e viver, ao longo do qual as rupturas se multipliquem e se agreguem, onde a possibilidade do comunismo se exprima na disponibilidade para o encontro, para a experimentação de outras relações com o mundo e com nós próprios. Trata-se, como se escreve nesta convocatória, “de nos organizarmos na base das nossas necessidades – de conseguir responder progressivamente à questão colectiva de comer, dormir, pensar, amar, de criar as formas, de coordenar as nossas forças – e de conceber tudo isso como um momento da guerra contra o império.”