Luta e repressão em França

04/08/2009

amarodiar1

É sabido que as notícias relacionadas com a detenção  de 9 pessoas acusadas de terrorismo pelo Estado francês vem provocando vivos debates acerca da sua detenção, bem como dos textos cuja autoria lhes é atribuída.

À boleia disso, alguns companheiros em França e em Itália acharam por bem pronunciar-se acerca dos acontecimentos, aproveitando para criticar simultaneamente a estratégia de defesa dos detidos e algumas das ideias e afirmações que lhes são atribuídas ou por eles vêm sendo reivindicadas. Ainda estamos a trabalhar num texto que situe e defina a nossa posição colectiva no contexto desse debate, que atravessa grande parte do movimento à escala europeia e, num sentido mais amplo, diz respeito a tod@ os e as que enfrentam a repressão do Estado e o controlo policial.  Por enquanto, optamos apenas por disponibilizar dois dos textos que nos parecem sintetizar as posições que, a partir de um ponto de vista anarquista, vieram criticar simultaneamente a estratégia dos detidos e as posições tomadas pelo Comité Invisível.

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Os dois textos abaixo foram traduzidos a partir da sua versão em italiano, disponível em Guerra Sociale.

Carta aberta aos companheiros franceses

A propósito das detenções de Tarnac e arredores

Sabemos como é doloroso ser separado dos próprios companheiros, e não temos receitas ou lições a dar sobre como fazê-los sair o mais depressa possível da prisão (fazê-los sair a todos, prescindindo de qualquer distinção entre “inocentes” e “culpados”). As breves notas que se seguem reúnem algumas reflexões nascidas a partir de várias experiências repressivas vividas em Itália, na esperança de que possam ser úteis aos companheiros franceses.
Os presos de Tarnac representam um caso grave não apenas enquanto ataque dirigido a todos aqueles que já se batem, na crítica e na prática, contra o Estado e o Capital, mas também na sua tentativa intimidatória relativamente a todos os potenciais cúmplices de uma guerra social mais difusa. A repressão, de facto, visa atingir, mais do que os actos isolados, as “más intenções”, desenvolvendo assim um papel pedagógico fundamental na despotencialização da atitude de revolta de todos e de cada um. A invenção de “células terroristas”, ou de “movidas” de uma qualquer identidade, serve para isolar cada hipótese insurreccional do conjunto das práticas de conflitualidades existentes, separando ao mesmo tempo cada revoltoso de si próprio e das próprias potencialidades. A pedagogia da repressão é sempre uma pedagogia do medo.
A tentativa de transformar confrontos de rua, acções anónimas de sabotagem, escritos teóricos ou relações de solidariedade em “associações terrorista”, com outras tantas células, chefes e agregados é, infelizmente, um filme a que já assistimos várias vezes em Itália. O problema do Estado é evidente: para liquidar determinadas práticas subversivas, e os “movimentos” que as apoiam abertamente, não bastam acusações de delitos específicos. Trata-se então de inventar “delitos associativos” para poder distribuir anos e anos de prisão sem ter de recorrer aquela arcaica formalidade a que se chamava prova. Muitos de nós foram alvo de processos, anos de detenção preventiva e, muitas vezes também, de condenações pesadas. Mesmo não conseguindo, frequentemente, levar até ao fim as suas investigações, o Estado coloca-se ao mesmo tempo alguns objectivos paralelos: destruir laços, interromper o fio da actividade subversiva, testar a capacidade de resposta dos companheiros, etc.
Em França, acções de sabotagem e confrontos com a polícia não datam decerto de antes de ontem. Aquilo que tem assustado o Estado nos últimos anos, a nosso ver, foi o emergir de uma possível cumplicidade - nas palavras e nos factos - entre diferentes formas de revolta social, bem como o desenvolvimento e a difusão de discursos que reivindicam publicamente as práticas de insurreição possíveis. Por outras palavras: o Estado não teme tanto o discurso revolucionário, desde que se limite a gozar da própria e abstracta liberdade da palavra, nem no fim de contas o ataque: o que teme é a imprevisibilidade do ataque difuso e o reforço recíproco das palavras e dos gestos. Aquela que foi durante tanto tempo uma posição de bem poucos indivíduos, começa a parecer um “pântano” (para voltar à eficaz expressão utilizada, há uma dúzia de anos, pelo núcleo “antiterrorista” dos carabinieri italianos) dificilmente identificável e governável. O Estado quer reclamar esse pântano porque lhe escapam “chefes”, “organizações”, movimentos com siglas, porta-vozes, etc.
Se é sempre válido o conselho que Victor Serge dava aos revolucionários reféns dos inimigos “neguem tudo, até as evidências” - é necessário saber ler a repressão, a fim de relançar a nossa própria perspectiva. Todos sabemos que o inimigo histórico de cada luta insurreccional é sempre a esquerda (e a sua esquerda): partidos e sindicatos, recuperadores, mediadores, intelectuais conselheiros dos modernos Príncipes, astutos aliados da repressão, hábeis em dividir entre “maus” e “bons”. Em circunstâncias particulares, estes podem até chegar a defender perante uma “Justiça injusta” aqueles mesmos companheiros que sempre os atacaram. Permitir que estes palhaços reconquistem qualquer tipo de força a partir dos nossos presos é um erro não desprovido de consequências.
Que a opor-se às sujidades do “antiterrorismo” não estejam apenas companheiros, mas também um âmbito mais alargado, tem os seus aspectos positivos (e é revelador da constatação assustada de que o terror do Estado nos esmaga cada vez mais). Mas a nossa perspectiva só avança quando se expõem com clareza perante outros explorados e rebeldes, ou seja, na firme inimizade relativamente à esquerda e aos seus meios de comunicação social.
Por outras palavras, até o modo de reagir à repressão faz parte dessa guerra social que não admite tréguas. Ao não assumire defender determinadas posições, cede-se terreno ao inimigo. A solidariedade democrática e o espaço quotidiano não se dão de graça: hoje, servem à esquerda não só para reabilitar-se aos olhos daqueles que estão irreconciliados com o existente (”Vêm? No fim de contas estamos de acordo…”) mas também para neutralizar qualquer posição de ruptura radical com o presente (podem até perdoar-se certos actos juvenis…). A resposta que muitos companheiros deram em Itália, perante semelhantes investidas (ou até mais pesadas) foi muito simples: “Nós não sabemos quem fez as coisas das quais nos acusam; aquilo que sabemos é que os defendemos abertamente, e que as vossas investigações não apagarão os fogos dessa revolta social que não esperou pelas nossas acções para propagar-se”. Semelhante resposta - juntamente com as práticas que lhe correspondem - permitiu-nos sair da prisão retomando o fio da nossa actividade. Semelhante resposta não encontrará certamente aliados entre a comunicação social e os intelectuais democráticos - sobretudo, não os permitirá falar em nosso nome.
Algumas palavras claras encontram sempre ouvidos prontos a escutá-las. Prisioneiras, as palavras forçam por vezes as correntes, emergindo das partes mais misteriosas e comuns da experiência e do coração.
A força que deriva de entrar no jogo deles e no seu discurso com a pretensão de explorá-los ou de revertê-los a nosso favor é ilusória. Com o nosso inimigo não temos em comum sequer o jogo das palavras - nem de felicidade, nem de tempo, nem de possibilidades, nem de sucesso ou insucesso.
Existem posições de ruptura que se revelaram úteis também no plano judicial, como foi o caso de alguns companheiros que cumpriram um ano de prisão por terem escrito coisas numa parede: não existe neste âmbito uma ciência exacta. A tensão pela coerência entre meios e fins coloca o problema da eficácia noutros termos, ou seja, em relação à vida pela qual lutamos. “Se são inocentes - dizia Renzo Novatore - têm a nossa solidariedade, se são culpados têm-na ainda mais”. Os companheiros solidários encontraram muitas vezes nestas palavras o terreno mais favorável para agir, para continuar onde alguns foram provisoriamente travados, e para descobrir novos cúmplices.
Uma certeza temos: a insurreição que vem não lê “Libé”.
Alguns anarquistas italianos
Fevereiro 2009

Carta aberta a alguns anarquistas italianos

Acabámos de ler a carta que nos endereçaram, a nós como a todos os companheiros franceses. Lêmo-la com prazer, identificando-lhe muitas considerações nas quais nos reconhecemos. Lêmo-la com atenção, já que essa provém de quem, porventura, teve de ajustar contas com a repressão muito mais e muito antes de nós. Mas, para dizer a verdade, deixou-nos um sabor amargo na boca e provocou um certo transtorno.

De facto, apetece perguntar: A quem se dirigem? De que estão a falar?

Como a vossa carta é dirigida aos companheiros franceses e formula críticas precisas à deriva “inocentista” que assumiu a mobilização a favor dos presos de Tarnac, não queríamos que em Itália se pensasse que os “companheiros franceses” estão todos dedicados a recolher assinaturas, na companhia de bolseiros intelectuais de esquerda, para entregar às entidades competentes como atestado de boa conduta. Se é verdade que alguns companheiros decidiram transformar aquela que, em nosso e em vosso entender, deveria ser uma luta contra a repressão, numa luta em defesa de alguns reprimidos, é também verdade que se trata de uma escolha sua, que não é certamente partilhada por todo o movimento francês.

Infelizmente a repressão em França não teve inicio no passado 11 de Novembro, tendo-se já abatido sobre outros companheiros. Felizmente as sabotagens prosseguiram também após essa data, imparáveis. Tarnac não é o centro de França, nem para o Estado nem para a insurreição. É só um episódio, que arrisca assumir conotações cada vez mais patéticas. Como justamente fazem observar, são as “más intenções” o verdadeiro objectivo da repressão, a qual, não conseguindo prevenir os ataques, tenta travar a difusão de discursos que reivindicam publicamente a necessidade e a possibilidade de uma insurreição (discursos que alimentam e são alimentados pela acção, num jogo contínuo de vasos comunicantes).

Aquilo que é grave, nas detenções de Tarnac, não é tanto o comportamento do Estado que, pelas razões que vocês exprimiram claramente, agride os nossos meios. No fundo, juízes e polícias não fazem senão o seu trabalho sujo. O que é grave é que, antes disso, se reneguem publicamente essas “más intenções” e que esses discursos sejam banalizados, fazendo-os passar pela simples “paixão histórica” de um “pequeno comerciante”. Ou então que se aceite totalmente preencher o papel de “bons rapazes” (de ilustre brasão e com referências adequadas, bem como disponíveis para o diálogo com jornalistas e polícias, e portanto fora do lugar numa cela), a não confundir com a “má escumalha” (sem santos no paraíso, mudos em frente ao inimigo, e que merecem apodrecer na prisão). Isto, estejam certos, é para nós muito mais doloroso do que a temporária separação física de alguns companheiros.

Sendo muitos os anarquistas italianos conhecidos pela sua intransigência, surpreendeu-nos e também nos afectou a delicadeza e a cautela com que nos dirigem as vossas observações (os Alpes são assim tão altos, que vocês se limitem a repreender em França aquilo que desprezariam em Itália?). Vocês diligentemente denunciam os “erros”. Quais erros? Temos muita pena, mas tememos que haja um mal-entendido: não foi feito nenhum erro na mobilização a favor dos presos de Tarnac. Tratou-se de uma precisa escolha de campo.

Deste ponto de vista, o vosso convite a “saber ler” a repressão, acompanhado da citação de Victor Serge é um autêntico lapso. É exactamente porque leram bem Victor Serge (aquele que, acusado no processo contra os ilegalistas conhecidos como Banda Bonnot, se defendia definindo-se um intelectual que nada partilhava com criminosos vulgares) que alguns companheiros franceses enveredaram pela estrada da defesa ad personam. Não estão senão a pôr em prática a ideia difusa segundo a qual seria necessário organizar-se a partir da situação, que em qualquer situação se podem estabelecer alianças, que na guerra contra o Estado não é necessário possuír escrúpulos morais ou impasses éticos, mas apenas estratégias a aplicar. É bom aquilo que faz sair os companheiros da prisão, é mau aquilo que os faz permanecer lá. Ponto final.

Lá onde a ética envolve a totalidade da existência humana, a política age sobre alguns dos seus fragmentos singulares. Por isto, o oportunismo é uma constante, porque se intervém à medida das circunstâncias. Quando estas são favoráveis, pode-se facilmente ser coerente. Quando são desfavoráveis…eis o motivo pelo qual isso se manifesta sobretudo em situações de crise ou de urgência.

O companheiro que se encontra com um funcionário do Estado (por exemplo um ex-ministro) movido pela emergência de um procedimento judicial (é preciso sair da prisão) não é assim tão diferente do companheiro que se encontra com um funcionário do Estado (por exemplo um síndico) movido pela urgência de uma luta social (é preciso travar uma nocividade), ambos são herdeiros do companheiro que se torna funcionário do Estado (por exemplo um ministro da justiça) movido pela emergência da guerra (é preciso fazer a revolução). Em todos os três casos se faz o contrário daquilo que se diz, valendo-se de boas razões (e tão práticas! tão concretas!) e das melhores intenções. A emergência desfaz o normal desenvolvimento dos acontecimentos, revoluciona cada ponto de referência, suspende a ética e abre caminho aos contorcionismos da política.

Tudo isto é óbvio, quase banal, mas só para quem acredita que ideias e valores não sejam parte integrante do ser humano, mas que lhe sejam externas, como ferramentas para usar conforme as ocasiões. Se em vez disso se considera que as circunstâncias que a realidade nos coloca podem até ser diferentes e contraditórias, mas permanecem únicos os nosso próprios pensamentos, os nossos próprios sonhos, os nossos próprios desejos, então é difícil negar que é precisamente nos momentos de crise ou de urgência que é preciso tentar sermos nós próprios. Trata-se de um jogo sempre aberto, cheio de imprevistos e obstáculos, em que é fácil tropeçar e cair. E então, o que se faz? Levanta-se de novo, procurando aprender com os passos errados, ou começa-se a rastejar elogiando a sua própria habilidade táctica?

No fim de contas, a insurreição é em si uma situação excepcional. Não faz sentido alguém armar-se em cavaleiro da Ideia fora dos momentos de ruptura, para depois se vir a descobrir que se trata de um manifestante de conveniência quando aqueles se verificam. Seria como proclamar-se contra o existente para depois sacar de uma agulha e começar a tecer relações com os seus apoiantes e os seus falsos críticos. No fundo, ou se pensa que fins e meios são apenas um (interpretação ética da luta), ou então acredita-se que fins e meios estão separados (interpretação política da luta). Interpretações intermédias, como aquelas que propõem meios sem fins, deixemo-las às abstracções filosóficas.

Cada um é obviamente livre de escolher a forma como prefere safar-se dos problemas (sem querer atribuir com isto um respeito devido ou uma amizade inabalável). Dito isto, pensamos que é necessário conter este oportunismo político declarado - presente em França, mas estamos certos que também em Itália e no resto do mundo. Isso poderá possivelmente abrir mais rapidamente as portas das prisões ou chamar a atenção de muitas pessoas boas, mas restituir-nos-á apenas a sombra dos companheiros que pudemos apreciar. Contra este oportunismo, é melhor a fúria iconoclasta de um Renzo Novatore que os astutos conselhos do anarca individualista arrependido Victor Serge.

Criaturas do pântano

Março 2009