A Insurreição que vem

“Este livro é assinado com o nome de um colectivo imaginário. Os seus redactores não são os seus autores. Limitaram-se a pôr um pouco de ordem nos lugares-comuns da época, naquilo que se sussurra nas mesas dos bares, por detrás das portas fechadas dos quartos. Não fizeram mais do que fixar as verdades necessárias, cujo recalcamento universal enche os hospitais psiquiátricos e os olhares de mágoa. Fizeram-se escribas da situação. É um privilégio das circunstâncias radicais que o rigor conduza logicamente à revolução. Basta falar daquilo que temos à frente dos olhos e não nos esquivarmos às conclusões.”
Jogos sem fronteiras
“Que atire a primeira pedra quem não tenha manchas de imigração na sua árvore genealógica… assim como na fábula do lobo mau que acusava o inocente cordeiro de escurecer a água do riacho de onde ambos bebiam. Se tu não emigraste emigrou o teu pai, e se o teu pai não necessitou de mudar de sítio foi porque o teu avô antes não teve outro remédio se não ir, carregando a casa às costas, em busca…”
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A sociedade do espectáculo

E sem dúvida o nosso tempo… Prefere a imagem à coisa, a cópia
ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser… O
que é sagrado para ele, não é senão a ilusão, mas o que é profano
é a verdade. Melhor, o sagrado cresce a seus olhos à medida que
decresce a verdade e que a ilusão aumenta, de modo que para ele o
cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado.
Appel
Proposta I
Nada falta ao triunfo da civilização.
Nem o terror político nem a miséria afectiva.
Nem a esterilidade universal.
O deserto não pode crescer mais: está por todo o lado.
Mas pode ainda aprofundar-se.
Perante a evidência da catástrofe, há os que se indignam e os que agem,
os que denunciam e os que se organizam.
Nós estamos do lado dos que se organizam.
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Da miséria nos ambientes subversivos
Não é tanto que tenhamos visto o que mais ninguém vê.
Dizer mal deste pardieiro está inscrito numa angústia colectiva da qual não nos excluímos, e que acaba sempre no mesmo divã psiquiátrico, mascarado de boémia, a mastigar o tédio e um desconforto impotente. De uma maneira ou de outra, acabamos sempre a invejar a miséria alheia, a suspirar por pardieiros longínquos, a lamentar ter vindo parar a esta cidade onde nada se passa.
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Antipatia
No contexto de conformismo e inércia da “cena antagonista” existente em Portugal é estranho que o projecto inicial de um colectivo vise demolir o que ainda existe desse pequeno movimento. Perante a semi-inexistência de projectos de veiculação e disponibilização de informação e reflexão, que permitam um extravasar de fronteiras e uma sofisticação das práticas, para quê um par de páginas dedicadas a bater no cadáver de uma “cena” que nunca chegou realmente a existir?
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